quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Contos Hindus

Diferente dos contos de fadas e das histórias que nós   ocidentais estamos acostumados a ler ou ouvir desde a mais tenra infância, os contos hindus não se preocupam com um final feliz  e  sim, com as lições de vida que os mesmos encerram.
São ao mesmo tempo baseados na realidade da vida e filosóficos.

Leia o conto abaixo e depois faça uma reflexão: que lição ou lições de vida este encerra.


                                       A CURA

Um famoso médico com excelente memória e saúde, tinha hábitos bem regrados e nunca abria mão deles. No final da tarde, saia de seu consultório para jogar golfe e, não abria mão deste hábito, assim  como de outros que tinha. E, segundo ele, estes hábitos  somados à disciplina lhe garantia saúde e boa memória.  
Certa tarde, quando já estava pronto para sair, um velho aborda-o na porta de seu consultório:
- Doutor, meu filho está muito doente, está morrendo. É meu único filho, olhe-o por favor.
O menino estava enrolado em um cobertor deitado no chão. Mas, o médico que não queria atrasar-se para o jogo, falou:
- Traga-o amanhã bem cedo e eu o atenderei.
- Doutor, ele vai morrer até amanhã. – O velho implorou, ajoelhou-se e prostrou a testa no chão. Mas nada fez o médico mudar de ideia.
- Se seu filho não resistir até amanhã, de nada adiantaria eu olha-lo agora. - Disse o médico afastando-se.
Muitos anos se passaram. O médico também tinha um filho, agora jovem. E este, gostava muito de encantar cobras venenosas cantando. 
Em certa ocasião, o filho do médico ofereceu uma festa para os amigos. Sua namorada, solicitou que este mostrasse aos amigos como ele conseguia encantar  as cobras com sua canção. O rapaz não queria fazer isto, disse que as cobras não estavam acostumadas com muitas pessoas e poderiam se agitar, seria perigoso. A moça insistiu e alguns convidados ao ouvirem o pedido dela, ficaram curiosos  e começaram também a insistir em ver as cobras.
O jovem rapaz, diante de tanta insistência, cedeu. Pegou a mais venenosa das cobras, pelo pescoço, e antes mesmo de começar a encantar a cobra com seu canto, um dos convidados perguntou:
- Ela não tem presas, não é?
- Tem sim! - respondeu o jovem -  Não teria graça nenhuma encantar cobras sem presas. Não haveria desafio algum.
Todos os jovens começaram a discorrer em voz alta sobre o assunto. E, em virtude do barulho e da movimentação, a qual não estava acostumada, a cobra começou a agitar-se. O jovem ficou preocupado  e nervoso. E, em vez de cantar como de costume, por ter ficado nervoso, começou a apertar o pescoço da cobra, para que esta não se movimentasse mais. A cobra sentindo cada vez mais o pescoço apertado, na ânsia de salvar a própria vida, parou de mover-se.  
- Ela está morta, disse um dos convidados.
Ao pensar que havia matado a cobra, o jovem fica muito triste, soltando-a no chão. Esta, imediatamente, percebendo-se livre,  vira-se e o pica.
Não havia antídoto para o veneno desta cobra e o jovem começa a passar mal.
O médico fez tudo o que estava a seu alcance, mas o filho ficava cada vez pior.
Um dos convidados lembrou-se que conhecia um velho que sabia lidar com tudo o que era relacionado a natureza e aos animais. Se alguém poderia fazer alguma coisa, seria ele.
- Vá, disse o médico, traga este homem, pago-lhe o que ele quiser, para que venha.  E  se ele salvar meu filho, dou-lhe metade de tudo o que tenho.
O convidado saiu correndo para chamar o velho.  Um bom homem bom, que  estava sempre disposto a ajudar todas as pessoas. E apesar de muito pobre, nunca cobrava nada por seus préstimos. Mas, este velho era o mesmo que o médico não quis atender quando o seu próprio filho estava morrendo.
O rapaz conta ao velho o que aconteceu na casa do médico.
A vontade de vingar-se imediatamente toma conta da mente do velho.
- Meu filho - diz o velho -   tinha uma doença que com o meu conhecimento, eu não conseguia curar. Mas o médico, com o conhecimento dele poderia cura-lo e não o fez. Agora, o  filho dele está envenenado e isto ele não pode curar.   Irei amanhã cedinho.
- Mas até amanhã, meu amigo já estará morto. - diz o rapaz.
- Não irei amanhã para curá-lo e sim para ver o médico sentir a mesma dor que eu senti quando o meu filho morreu.
O rapaz foi embora e o velho deitou-se para dormir. Mas, várias vezes levantava-se indo em direção à porta. Sua mente queria vingar-se do médico, seu coração queria salvar o jovem. 
Passou horas em tal dilema, dizendo a si mesmo que esta vingança aliviaria a dor da perda de próprio filho. Entretanto, em uma das vezes que chegou a porta, quase sem perceber, acabou saindo de casa e quando viu já estava batendo na porta da casa do médico, que pelo transtorno da dor e do desespero, não o reconheceu na hora.
O velho disse que tentaria salvar o jovem. O médico o levou até o quarto. Ao ver o jovem já moribundo, o velho pediu que lhe trouxessem muita água. E, enquanto derramava água na cabeça do jovem agonizante, canta um mantra de cura.
Quando o dia amanheceu, o médico olhou  bem para o velho e o reconheceu. Neste mesmo momento, seu filho abre os olhos e o velho diz ao médico:
- De água para ele beber.
Enquanto o médico se ocupa em dar água ao filho que acaba de recuperar a vida, o velho vai embora sem que ninguém perceba.
Vendo o filho fora de perigo o médico em vão procura pelo velho. Então,  diz à sua esposa que vai procurar aquele velho homem.
- Para pagá-lo? – pergunta ela.
O médico conta a esposa o ocorrido anos atrás e com muita vergonha e remorso  diz:
- Não. Não vou oferecer-lhe nenhum pagamento.  Porque certamente ele não aceitará. Vou me jogar aos seus pés e implorar o seu perdão. Minha alma só sentirá paz outra vez se ele me perdoar.